2/02/2010

Barulho 2

NOTA MENTAL

Manipulo meus desejos em busca de um etendimento maior sobre você.
Te tenho na minha cama diversas vezes e sinto o seu respirar cada vez mais próximo ao meu e ainda assim não te toco.
Você está tão próxima, tão dentro de mim que eu me pergunto se o que sinto é real.
Se existe um eu, se existe um você, se algum dia poderá surgir um nós.
Nesse entrelaçar de idéias e desejos eu me pego atordoada com sua orelha em minha boca, tentando, e não conseguindo, controlar as minhas vontades.
Você se remexe como se me dissesse: Continua!
E eu continuo, mas tentando respeitar o seu espaço, a sua vontade.
Meu desejo não pode superar o seu. Eu não permitiria.
Mas como o destino é uma máquina de manipulação melhor que eu, ouvimos o soar do celular e tudo acaba.
O desejo permanece intacto, mas a consciência de que entregar-se a este sentimento talvez resultasse num grande erro devolve-nos a realidade levando-nos a despedida.
O que me anima é saber que essa não será a nossa última vez.
O que me agonia é pensar no meu desejo de uma próxima vez.
O que me amedronta é imaginar que eu posso desejar isso uma vez após a outra.
Até o meu equilíbrio se esvair e eu me apaixonar.

Livres 4

PERFUME

Nunca pensei que simples perfumes pudessem ser tão reveladores.
Ou pior, que pudéssemos ser tão submissos a eles.
Achei durante toda minha vida que a natureza já havia deixado na nossa pele um odor simples e penetrante.
Aquele que no calor ou no frio marcava mais que ferro em brasa.
Até que um dia pude sentir o seu perfume e perceber que o meu não era nada.
A minha natureza diante da sua mistura de essências tornou-se perplexa frente a beleza do seu cheiro.
E eu, submissa a ele, covardemente me recolhi.
Pensando que aquilo passaria, deixei-me levar pela sua pele macia, e me entregar ao seu corpo.
Mas dia após dia vi o reflexo do meu desejo penetrando minhas narinas.
Então percebi que eu já era escrava.
Escrava do teu perfume que me deixara marcas, que invadia o meu dia sem pedir licença e me trazia de volta recordações dos nossos corpos entre os lençóis.
Escrava da tua alma impiedosa.
Escrava deste seu cheiro que me arruinava, me desconcentrava e me ludibriava.

Eu era, sou, estou escrava. O que mais posso esperar?


[Em meio a esse questionamento, e armada de pó de café fresco, ela se curava.]

Livres 3

UM DILÚVIO OFERTADO

Talvez a oferta de sentimentos tenha sido pouca,
ou talvez não tenha sido o que você procurava,
mas parecia ser.

Era tão obvia a minha vontade,
que eu desejei que fosse a sua procura.
E ofereci diversas vezes
até que nem eu soubesse mais o que oferecer.

Nesta feira de sentimentos os movimentos foram constantes,
mas sem resultados profundos eu acabei permanecendo com os meus próprios produtos.
E quando eu mais pensei que nada mais fosse destaque na minha barraca de sentimentos complexos,
você se aproximou e perguntou o que poderia ter em troca.

Surpresa com a sua atitude eu recuei,
mas logo voltei questionando-a como se questiona ao próprio cérebro.
Mas você não esperava o meu recuo,
e recuou também.
Então ficamos sem palavras.
Mantivemos os nossos gestos,
o nosso carinho,
o nosso contato,
mas nunca pudemos dividir os nossos laços.

E como nada é para sempre eu vou aguardando
enquanto os sentimentos não voltam a ser distribuídos.

Enquanto houver sol eu estarei aqui,
nesta barraca com um dilúvio de sentimentos ofertados.

Livres 2

CONTO DAS PAIXÕES

Espera-se sempre pelas paixões completas.
Aquelas recíprocas, sentidas a dois.
Aquelas que resultam em amor,
que progridem por anos.
Aquelas traduzidas em: - Para sempre; - Seja eterno; - Nunca vai acabar.
Espera-se sempre por momentos não platônicos.
Por lembranças felizes.
Por causos e acasos lembrados e re-lembrados.
Por conhecer e reconhecer-se no outro.
Espera-se por atingir o desconhecido,
e torná-lo seu amigo.

Viu que perfeito?
Dá até para transformar a paixão num conto:
- Era uma vez...

Livres 1

I FEEL

Somos feitas de defeitos,
mas também de desejo.
O desejo de estar perto,
de pertencer ao mundo uma da outra,
de querer bem e de estar bem,
de sermos um único ser,
de nos amarmos loucamente,
e de temperarmos cada momento
com atos falhos únicos,
que só tendem a nos revelar
quem realmente somos,
e o que podemos fazer
pra preservarmos todo o nosso amor.